Curiosidades

Escadas das Sereias
29 Junho, 2019 / ,

Entre o Largo da Alfândega e a Rua da Bandeirinha, encontra-se um caminho que revela os segredos da parte antiga da cidade do Porto.

As Escadas das Sereias, no popular bairro de Miragaia, tomaram o nome do vizinho Palácio das Sereias. O palácio de meados do século XVIII foi residência citadina da família Cunha Osório Portocarrero e deve o seu nome às avantajadas esculturas que ornamentam a sua fachada.

Da azáfama do trânsito na Ponte da Arrábida à tranquilidade do rio Douro, o topo da escadaria permite-nos sentir a cidade e os seus sons.

O MENSAGEIRO, de IRENE VILAR
13 Fevereiro, 2019 / ,

Uma estátua plantada à beira-rio que traz esperança à cidade do Porto

Irene Vilar nasceu em Matosinhos em 1930 e é detentora de uma vasta obra plástica espalhada por muitos países como Alemanha, África do Sul, Brasil, Bélgica, Holanda e Macau. Distinguida ao longo da vida com vários prémios, a artista afirmou-se em áreas diversas como a escultura, numismática, medalhística e pintura. Foram cerca de cinco décadas de produção e afirmação artística que lhe valeram diversos prémios e distinções

A artista teve desde muito nova uma grande ligação à Foz do Douro, onde viveu a partir dos 19 anos e onde veio a montar o seu atelier.

Uma das suas obras mais emblemáticas é sem dúvida “O Mensageiro”. Escultura em bronze – um dos seus materiais de eleição – , de cariz expressionista, marca majestosamente a margem do Rio Douro  junto ao Cais de Sobreiras, em plena Foz do Douro.

Inaugurada em 2001, “O Mensageiro”, ou “O Anjo” como é vulgarmente conhecida pelas pessoas do Porto, trazia, segundo a autora “a boa esperança à cidade do Porto”. Talvez por isso se tenha transformado quase num local de culto, onde as pessoas depositam flores e velas a seus pés.

Irene Vilar morreu aos 77 anos, em 2008.

 

 

O Porto Escondido
9 Janeiro, 2019 / , , ,

As cidades constroem-se por cima das cidades. Esta é uma ideia que quer os arqueólogos, quer os arquitectos pressentem na realidade do seu trabalho cotidiano, que os condiciona, que os motiva e que está na raiz do futuro de qualquer cidade.

Desde que o Homem se sedentarizou, isto é, desde que os bandos de caçadores recolectores nómadas em busca dos melhores terrenos de caça deram origem ao assentamento permanente em aldeias cujos habitantes passaram a viver da agricultura e da criação de gado, que o tipo de habitação se modificou e passou a ter um carácter estável, com a adoção de materiais como o adobe, o tijolo e a pedra, para além da madeira, utilizada desde sempre.

Constatamos isso em povoados tão antigos como Çatal Hüyük (Anatólia, sul da Turquia) ou Jericó (Palestina), talvez as cidades mais antigas que se conhecem, construídas entre 8.000 e 7.000 a.C., e onde as construções se foram sucedendo, sendo as cidades ampliadas horizontalmente, mas também à custa dos derrubes das construções anteriores, aproveitando-se muitas vezes os seus alicerces para sobre eles se erguerem novas construções.

O Porto não terá sido diferente. Mas quem o sobrevoa, quem chega da outra margem ou quem percorre as suas ruas e observa o seu casario, não tem essa percepção, vê apenas aquilo que os seus olhos captam, as ruas, as casas, os prédios, as infra estruturas, não se lembrando que esta é apenas a nossa cidade, não a dos nossos avós e outros ancestrais.

Essas, as cidades deles, estão por vezes enterradas debaixo da nossa e, num momento em que o Porto vibra com a sua recuperação, sobretudo com a recuperação do seu Centro Histórico, os sinais dessas “cidades” que nos antecederam vêm ao de cima.

Talvez os vestígios mais antigos se encontrem no edifício da Rua D. Hugo, nº5, por detrás da Sé, onde foi possível sequenciar uma ocupação com vestígios desde o século VIII a.C., com casas de planta redonda. A que se sobrepõem casas já do período romano, de planta quadrangular.

Outro fantástico exemplo da forma como a cidade se foi construindo, é-nos fornecido pelas escavações arqueológicas da Casa do Infante, já numa zona baixa da cidade, em que a uma grande e luxuosa casa romana e tardo-romana (Séc. IV-VI) se sobrepõem as construções medievais, com a edificação dos armazéns do Rei, da Alfândega Régia e da Casa da Moeda, perdurando a sua ocupação e sucessivas ampliações ao longa da Idade Moderna e Contemporânea.

Mas o exemplo que vamos dar é igualmente representativo: numas obras dum edifício com frentes para a rua de S. Francisco e para a Rua Nova da Alfândega, onde esteve sedeada a antiga empresa de trânsitos A. J. Gonçalves de Moraes, em escavações aí realizadas apareceram vestígios da cidade oitocentista, mais concretamente o antigo quarteirão dos Banhos.

Aterrado quando das grandes transformações urbanísticas inerentes à construção do edifício da Alfândega Nova (1860-1870), construção da Rua Nova da Alfândega e da Rua Ferreira Borges, que implicou a destruição do Mosteiro de S. Domingos, o velho quarteirão dos Banhos ficou sepultado sob 5 metros de entulho.

As escavações mostraram uma outra faceta da cidade, uma zona ribeirinha e mal-afamada, que começava no areal já descrito por Ranulfo de Granville em 1147 e onde se situavam uns dos balneários da cidade, junto ao postigo dos Banhos e à Rua dos Banhos.

Fui uma dessas vielas, ainda com edifícios dos dois lados que foi posta a descoberto. Uma das casas, defronte da porta de entrada ladeada por janelas com grades de ferro, tinha um pátio lajeado.

Numa zona contígua, por debaixo cerca de um metro, o forte alicerce do que pode ter sido o edifício medieval dos banhos públicos. A escavação ficou por aí.

Mas o achado de materiais de construção romanos pode indiciar a presença de vestígios bem mais antigos…

 

Marcelo Mendes Pinto – Arqueólogo. Investigador CITCEM

Missa do galo, uma expressão latina
28 Dezembro, 2018 / ,

Missa do Galo é o nome dado pelos católicos à missa celebrada na Véspera de Natal que começa à meia noite de 24 para 25 de Dezembro. A expressão “Missa do Galo” é específica dos países latinos e deriva da lenda ancestral segundo a qual à meia-noite do dia 24 de dezembro um galo teria cantado fortemente, como nunca ouvido de outro animal semelhante, anunciando a vinda do Messias, filho de Deus vivo, Jesus Cristo.

Uma outra lenda, de origem espanhola, conta que antes de baterem as 12 badaladas da meia noite de 24 de Dezembro, cada lavrador da província de Toledo, em Espanha, matava um galo, em memória daquele que cantou quando São Pedro negou Jesus três vezes, por ocasião da sua morte. A ave era depois levada para a Igreja a fim de ser oferecida aos pobres que viam, assim, o seu Natal melhorado. Era costume, em algumas aldeias espanholas, levar o galo para a Igreja para este cantar durante a missa, significando isto um prenúncio de boas colheitas. Mas isso era antigamente pois agora isso é proibido.

A missa do galo é normalmente comemorada com muita alegria, como se conta no texto sobre a tradição da missa da Igreja da Lapa.

Porto, um mundo de expressões
6 Dezembro, 2018 / ,

Nunca fez sentido comparar cidades do mundo ao Porto. A regalia de poder comer uma francesinha em cada esquina e de beber uma cerveja numa esplanada da ribeira é algo que todos os que aqui vivem ou nos visitam têm acesso. Mas existem detalhes que fazem distinguir aquele que é um verdadeiro tripeiro: A pronúncia singular e as expressões sem igual.

Se tivesse de dizer a primeira expressão portuense que ouvi na vida, ainda que seja impossível dizer que é verdade, teria de ser algo que ouvi no dia do meu nascimento. Era capaz de jurar que o médico ao ver o meu pai numa situação de êxtase, ter-se-á aproximado, exclamando: “Veja lá, tenha cuidado ou ainda lhe dá o badagaio. Mas o que é isto, “de lhe dar o badagaio”? É tão simples como dizer “Veja lá, que ainda desmaia”.

Mas quer outra expressão típica do Porto e que o pode ajudar na sua estadia: Jecos. Seria ofensivo tratar um cão, não sabendo o seu nome, apenas por cão. E é aí que entram as boas maneiras portuenses: todos os cães têm nome, são todos Jecos. Já sabe se ouvir dizer “CUIDADO COM O JECO” corra.

E como não há duas sem três, aqui vai uma fundamental para a sua estadia no Porto: Fino. O fino é mais do que uma simples cerveja. É um instrumento de conversa, de desculpa para combinar um programa.

Engana-se aquele que pensa que o Portuense não tem um cartão de identificação próprio. A pronúncia e as expressões do Norte, é aquilo que nos faz ser tão únicos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão facilmente reconhecidos.

Gomes Teixeira – O matemático que podia ter sido padre
15 Outubro, 2018 / , , ,

Gomes Teixeira, ilustre matemático que viria a ser o primeiro reitor da Universidade do Porto, só não estudou Teologia por mero acaso.

Nascido em janeiro de 1851 em Armamar, cedo se destacou pela sua inteligência e pelas boas notas obtidas em todas as disciplinas. Naquela altura, era comum que os rapazes com bom aproveitamento escolar fossem encaminhados para o Seminário, mas o jovem era brilhante a Matemática. Assim, quando chegou a altura de ir para a Universidade, a família resolveu que seria a sorte a decidir entre Teologia e Matemática.

A sorte ditou Matemática e desde que chegou à Universidade de Coimbra, Francisco Gomes Teixeira destacou-se pelas notas máximas obtidas. Aos 20 anos publicou o seu primeiro trabalho e em 1874 terminou o curso com a nota de 20 valores. Um percurso académico tão brilhante teria, obviamente, de o conduzir à carreira de professor. Destacou-se na Universidade de Coimbra e na Academia Politécnica do Porto, que viria a dirigir. Em 1911 foi fundada a Universidade do Porto e Gomes Teixeira foi escolhido para ser o seu primeiro reitor. Morreu no Porto em 1933. Após a sua morte foram feitos três bustos em bronze, posteriormente colocados na sua terra natal, na Universidade do Porto e na Universidade de Coimbra.

Fonte: O Tripeiro 7ª Série Ano XIX nº1 e 7ª Série Ano XXX, Número 12

O Cerco do Porto
14 Setembro, 2018 / , ,

Foram 13 meses que marcaram para sempre a cidade. O Cerco do Porto durou entre julho de julho de 1832 a agosto do ano seguinte, mas a sua memória permanece na toponímia e na alma da cidade.

A cidade ficaria para sempre marcada pelos meses em que esteve cercada: para além dos danos materiais e das perdas de vidas humanas, este período da História deu ao Porto o título de “antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”, atribuído por D. Pedro como forma de agradecimento pela lealdade e valentia com que os portuenses defenderam a causa liberal. O rei viria mesmo a oferecer o seu coração à cidade como forma de agradecimento.

Nomes como “Bairro do Cerco do Porto”, “Rua do Heroísmo” (em memória a uma sangrenta batalha que aí decorreu) ou “Rua da Firmeza”, que perpetua “o denodo e resignação com que os portuenses valorosamente resistiram” ao cerco, evocam essa época e uma guerra entre dois irmãos com convicções opostas.

O Porto nunca aceitou a subida do absolutista D. Miguel ao poder (1828) e quando D. Pedro assume o comando do movimento Liberal, encontra nas gentes da cidade um poderoso aliado. A 8 de Julho de 1832, D. Pedro, vindo dos Açores, desembarca em Pampelido (Mindelo) para tomar a cidade do Porto, chegando à atual Praça da Liberdade ao meio-dia. As tropas de D. Miguel tinham sido deslocadas para Lisboa, pelo que os liberais não tiveram dificuldade em entrar na cidade. No dia seguinte, o exército absolutista, vindo de sul, instala-se na Serra do Pilar, no outro lado do rio, para bombardear a cidade e expulsar os liberais. Começa assim o cerco: os apoiantes de D. Pedro permanecem no Porto, cercados. Os alimentos e bens essenciais começam a escassear e, com o agravar da situação, a cólera e o tifo tornam-se também adversários de quem luta pela causa liberal.

Em junho de 1833, os liberais alteram a estratégia e resolvem atacar a partir do Algarve. As tropas miguelistas, convencidas de que o adversário estava enfraquecido, resolvem lançar um grande ataque ao Porto, mas são derrotadas. A 26 de julho Lisboa estava lá ocupada pelos Liberais, mas o Porto permanecia cercado. A 18 de agosto, sob o comando do Marechal Saldanha, o exército liberal consegue uma vitória decisiva que levará a que, dois dias depois, os apoiantes de D. Miguel batam em retirada. Estava terminado o Cerco do Porto.

A estação de metro que é um museu
14 Setembro, 2018 / ,

A estação de metro do Campo 24 de Agosto guarda um verdadeiro tesouro: as ruínas de um reservatório de água que ali existia.

Além de ter sido projetada pelo conceituado arquiteto português Souto Moura, esta estação no centro da cidade tem outro motivo de interesse, albergando os vestígios arqueológicos de um reservatório que abastecia a fonte que existia neste local. No século XIX, a ribeira que ali corria foi soterrada, bem como a ponte que a atravessava. Com o passar do tempo e a urbanização da zona envolvente – que anteriormente era sobretudo rural -, a memória desse passado ficou esquecida, até que o progresso recuperou essa memória.

Aquando da construção da estação de metropolitano, no início deste século, foi descoberto o que restava do antigo reservatório, bem como alguns objetos, incluindo solas de sapato, cerâmica portuguesa, vidro italiano ou porcelana chinesa. Para preservar essas memórias, as ruínas foram desmontadas e depois reconstruidas no local onde hoje podem ser visitadas, acompanhadas de explicações que contextualizam a importância destes vestígios.

As duas imagens da Senhora da Luz
13 Agosto, 2018 / , ,

Antes do farol de São Miguel, que foi edificado em 1758 na Foz, terá existido no local uma capela dedicada à Senhora da Luz.

Segundo alguns estudos, na época pré-histórica aquele local teria um significado especial, como comprovam marcas feitas nas rochas. A referência à “Senhora da Luz” e à respetiva capela já surge em 1680. Seria uma construção simples, mas de grande importância para pescadores e marinheiros.

Bombardeada durante as guerras liberais, a capela seria destruída, mas do seu recheio foi salvo um altar com a imagem que está hoje na Igreja de São João da Foz do Douro. Esta imagem de Nossa Senhora invoca a luz, tão necessária para quem andava no mar. Enquadrada por talha dourada e adornada com imagens de anjos, a Senhora da Luz ainda hoje é venerada.

Na mesma igreja existe também outra imagem, com 30 cm de altura e feita em marfim, representando Nossa Senhora com Jesus ao colo. Apesar do seu reduzido tamanho, esta imagem, decorada com um manto bordado a ouro e pedras coloridas, destaca-se pela raridade e beleza de alguns detalhes. A imagem destinar-se-ia a ser transportada e beijada pelos fiéis em dias festivos.

Fonte: O Tripeiro 7ª Série, Ano XV número 9 Setembro 1996
Um memorial feito de destroços
13 Agosto, 2018 / ,

 

No cemitério de Agramonte, na zona da Boavista, uma gigantesca arca preenchida com ferros queimados e retorcidos lembra uma das maiores tragédias da cidade.

Na noite de 20 de março de 1888, um violento incêndio destruiu completamente o Teatro Baquet, um edifício com duas entradas (pela Rua de Sá da Bandeira e Rua de Santo António, atual Rua 31 de janeiro). Nessa noite fatídica, a sala estava cheia e no palco representava-se uma ópera cómica. Numa mudança de cenário, um dos panos tocou na chama da iluminação a gás. Devido aos materiais,  à antiguidade do edifício e à inexistência de um plano de segurança, o fogo propagou-se rapidamente e 120 pessoas terão morrido nessa tragédia.

O incêndio levou a que fossem redobrados os cuidados com a segurança em todas as salas de espetáculo da cidade e, para que tal desgraça nunca mais fosse esquecida foi feito um memorial no Cemitério de Agramonte. O mausoléu, que ainda hoje intriga quem desconhece este episódio da história da cidade, foi feito com pedaços de ferro e tem no topo uma grande coroa de martírios, também em ferro.