História

O Porto e os ingleses – Uma amizade de séculos
18 Abril, 2018 / ,

É bem conhecida a influência dos ingleses na cidade por via do Vinho do Porto, mas a relação entre portuenses e britânicos é muito mais antiga.

O primeiro contacto terá acontecido em junho de 1147, quando os cruzados ingleses que se dirigiam à Terra Santa ficaram 11 dias no Porto à espera das forças comandadas pelo conde de Areschot e por Cristiano de Gistell, que se tinham separado da armada devido a um temporal. O primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, ao saber deste facto, procurou estabelecer um acordo com os seus chefes, convencendo-os a ajudar na conquista de Lisboa aos mouros.

O relacionamento intensificou-se durante a Idade Média, com o estabelecimento de relações comerciais. Panos, vinho, madeira, peles e pescado eram os produtos transacionados entre os dois países.

A 2 de fevereiro de 1367 a Sé do Porto foi palco do casamento entre D. João I e D. Filipa de Lencastre, uma união que teve como contrapartida o apoio dos britânicos na luta com Castela.  Em 1642, dois anos após a restauração da independência de Portugal, o Porto recebe o primeiro cônsul britânico, Nicholas Comerforde.

Nicolau Nasoni -A grande influência arquitetónica portuense
18 Abril, 2018 / ,

Reinou aqui por mais de 30 anos o arquiteto-pintor Nicolau Nasoni como uma espécie de rei das artes, efetivamente sem rivais.

 Chegou em 1725, com a idade de 34 anos (pois nasceu na Toscana em 1691), vindo de Valeta, da Ilha de Malta, onde trabalhara por alguns poucos anos para o grão-mestre português D. António Manuel de Vilhena.

A sua grande obra de Malta, foi a pintura dos corredores do palácio dos grão-mestres em Valeta, nos quais revelou o estilo que iria depois traduzir para o granito do Porto, em obras como a Sé, os Clérigos e a Igreja da Misericórdia. Roque de Távora, irmão do deão do cabido do Porto, terá recomendado Nasoni, por causa da sua espetacular capacidade de trabalhar.

 Nasoni, deu ao Porto aquela grandeza urbana, que nasce da posse de palácios e templos, conventos e casas nobres em grande escala, identificados com um génio artístico de primeira qualidade. E, no caso do grande artista portuense, esta distinção não se limita ao campo da arquitetura. Manifestou-se também na pintura, na escultura, tanto em pedra como na talha, na ourivesaria, no ferro forjado, para citar apenas alguns aspetos do génio do homem extraordinário, que enobreceu plasticamente a cidade do Porto.

 

Artigo retirado da revista “O Tripeiro”, nº7, Julho 1996, VI série, Ano VI

 

A tragédia da Casa das Sereias
9 Março, 2018 / ,

Também conhecida como Palácio da Bandeirinha, a Casa das Sereias (assim chamada devido às duas imagens que ladeiam a porta principal) foi construída em meados do século XVIII pela família Portocarrero.

O edifício, um imponente palácio que ainda hoje se distingue na paisagem da cidade, foi construído no local do Cemitério dos Hebreus e da antiga judiaria. A família, apesar da sua riqueza e prestígio, não escapou a alguns episódios trágicos. O dono da propriedade morreu num acidente de barco no Douro e, como não tinha filhos, o palácio passou para o irmão.

Em 1809, durante as Invasões Francesas, um grupo de populares, convencido que um dos elementos da família era conivente com os franceses, chacinou-o no pátio da casa. Os Portocarrero, que entretanto perderam outros membros da família de forma trágica, abandonaram o palácio e não mais voltaram. O edifício esteve fechado até 1995. Foi vendido ao Instituto das Filhas da Caridade, que ali instalaram um colégio que se mantém ainda em funcionamento.

 

 

 

 

O Tripeiro 7ª série Ano XXXIII, Número 3 Março de 2014

João Queiroz – O arquiteto da Baixa
7 Fevereiro, 2018 / , ,

O Café Majestic é, talvez, a sua obra mais emblemática. João Queiroz trabalhou sempre sozinho num pequeno atelier na Baixa do Porto e ajudou a definir a estética de uma das zonas mais conhecidas da cidade.

Nasceu no Porto em 1892 e viveu durante toda a juventude numa casa situada na Rua de Santa Catarina, em frente ao local onde está hoje o Café Majestic. Esses terrenos, onde na altura existiam amoreiras que eram fundamentais para a produção de seda, viriam a ser ocupados por edifícios marcantes para a história da cidade, vários deles com a traça deste arquiteto.

Fez o Curso Preparatório de Desenho da Escola de Belas Artes do Porto e em 1926, depois de ter trabalhado na Direção Geral dos Edifícios e Monumentos do Norte, obteve o diploma de arquiteto. Voltaria a estudar aos 52 anos, matriculando-se no curso de Urbanologia, que tinha sido criado nesse mesmo ano. O seu percurso académico e a vida profissional foram marcados pelas duas guerras mundiais, pelo que desenvolveu também uma sólida carreira militar, tendo atingido o posto de capitão. Era, aliás, conhecido como Capitão Queiroz.

O seu primeiro projeto consistiu num prédio racionalista, localizado na Rua de Santa Catarina, no Porto, que criou para o seu pai. Foi lá que instalou o atelier onde sempre trabalhou.

O seu edifício mais famoso foi, sem dúvida, o Café Majestic, inicialmente chamado Café Elite; quando os proprietários do café decidiram criar uma janela para venda de jornais nas traseiras do café, recorreram novamente aos serviços deste arquiteto. O Cine Teatro Olímpia ou o Cinema Trindade são igualmente edifícios da sua autoria; foi também autor de um projeto, não concretizado, para o Coliseu do Porto.

Entre as suas obras estão também casas de habitação particular e loja; uma das mais inovadoras fica no número 54 da Rua de Santa Catarina e, na época, a montra circular não agradou aos mais conservadores. Em termos de habitações, destacam-se o nº 65 da Rua António Aroso e o n.º 315 da Rua António Patrício.

Faleceu aos 90 anos, a 25 de Fevereiro de 1982.

 

Igreja Românica de Cedofeita
10 Janeiro, 2018 / , ,

É a igreja mais antiga do Porto, com origens que remontam ao século VI e a um rei desesperado para salvar um filho doente.

Classificada como Monumento Nacional e localizada junto a uma outra igreja maior e mais moderna, a Igreja de São Martinho de Cedofeita, vulgarmente conhecida como Igreja Românica de Cedofeita, destaca-se pela sua simplicidade e antiguidade.

A atual igreja não é, porém, o edifício original, já que o templo inicia, que dataria do século VI e da Dinastia Sueva, sofreu várias alterações ao longo dos anos. Os vestígios mais antigos seriam de finais do século IX, portanto anteriores à própria formação de Portugal, que só ocorreria no século XII. Terá sido depois de 868 (ano da reconquista da cidade aos mouros) que aqui foi construído um templo, cujos capitéis ainda resistem. Estes elementos foram construídos em calcário, provavelmente vindo da região de Coimbra, enquanto o restante edifício foi feito em granito. As partes mais baixas da capela-mor serão posteriores, datando já de cerca de 1087.

No entanto, a fase românica desta importante obra só surgiu mais tarde, já no período do reinado de D. Afonso Henriques, o primeiro rei português. Para além da antiguidade, esta igreja tem características arquitetónicas e decorativas únicas nesta região do país: particularmente importante é o tímpano no Portal Norte, onde se pode ver um Agnus Dei (cordeiro místico que simboliza Cristo no Apocalipse), bastante semelhante a outra que existe atualmente no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra. As influências dessa região podem ser explicadas pelo facto de nesta obra ter trabalhado Soeiro Anes, que esteve também ligado à Sé Velha de Coimbra.

A lenda:

O rei suevo Teodomiro, desesperado para salvar o filho doente, fez uma promessa a São Martinho de Tours, enviando para Tours ouro e prata com peso igual ao do seu filho. No regresso, um bispo trouxe uma relíquia do santo e, quando esta foi mostrada, o doente curou-se. Agradecido, o rei converteu todo o seu povo ao Catolicismo e mandou construir uma igreja em honra do santo. A igreja foi rapidamente construída, ficando conhecida como Cito Facta, que significa Feita Cedo. Desta expressão deriva o atual nome daquela zona: Cedofeita.

Informações:

Largo do Priorado, Porto

Horário: terça a sexta-feira:  16:00-19:00

 

O dia em que o Rei visitou o Porto
13 Outubro, 2017 / ,

Em novembro e dezembro de 1908 D. Manuel II, que viria a ser o último rei de Portugal, fez uma longa viagem ao norte do país, tendo passado vários dias no Porto.

Num desses dias, e depois da mãe, a Rainha D. Amélia, ter feito compras numa grande loja da cidade, o povo reuniu-se no Campo da Regeneração (atual Praça da República), para uma parada militar. Dizem os jornais da época que muitas pessoas subiram aos telhados para poderem assistir e que nas ruas, os automóveis, trens e elétricos que se dirigiam ao local tiveram de voltar para trás.

O desfile percorreu várias ruas da Baixa e, em plena Rua de Santa Catarina, o cortejo é recebido com uma grande chuva de flores. No final do dia, tem lugar um jantar de gala no Palácio dos Carrancas. Dona Amélia teve também um dia preenchido, tendo visitado o atelier do escultor Teixeira Lopes.

Depois de ter percorrido diversas localidades do norte, D. Manuel II regressaria ao Porto, tendo participado num sarau no Ateneu Comercial do Porto. Em mais uma homenagem ao rei, os banheiros da Praia do Ourigo deram o nome do monarca à praia. Em outubro de 1910 deu-se a implantação da República e a designação ficou para sempre esquecida.

Fonte: O Tripeiro 7ª série Ano XVI Número 1 e 2 Fevereiro 1997

As sinagogas do Porto
23 Abril, 2017 / ,

A presença judaica no Porto será anterior à própria existência da cidade, mas os primeiros registos datam do século XII, altura em que muitos comerciantes judeus se instalaram na Ribeira.

A primeira sinagoga de que há conhecimento terá surgido no morro da Sé. Mais tarde, já no século XIV, terá existido outra casa de oração na atual Rua do Comércio do Porto, perto do Palácio da Bolsa. Viria entretanto a ser construída a Judiaria de Monchique, uma zona da cidade onde, ainda hoje, a presença judaica é visível na toponímia. Ali existiu também uma sinagoga de grande importância. A placa comemorativa da sua inauguração está exposta no Museu do Carmo, em Lisboa. O cemitério judaico ficaria perto do local onde hoje existe o Passeio das Virtudes.

Já no século viria a ser construída a Judiaria do Olival, que tinha também uma imponente sinagoga, vindo mais tarde a dar lugar ao Mosteiro de São Bento da Vitória. A Inquisição e a conversão forçada de muitos judeus também deixaram a sua marca no Porto. No século XVII foram muitos os judeus que deixaram a cidade.

Já no século XX viria a ser construída a Sinagoga Kadoorie Mekor Haim (na Rua Guerra Junqueiro, 340), a maior da Península Ibérica.

 

 

 

O clube das “camisolas esquisitas”
11 Março, 2017 /

Campeão português em 2000/01, o Boavista tem uma história de mais de 100 anos. Fundado por britânicos, chamou a atenção nos anos 90. O equipamento axadrezado levou a que ficasse conhecido em Itália como “o clube das camisolas esquisitas”.

Os ingleses, que devido aos negócios do Vinho do Porto tinham uma grande comunidade na cidade, introduziram o futebol no Porto. O The Boavista Footballers foi fundado em 1903, mas poucos anos depois, um desentendimento quanto aos dias em que se deveriam disputar os jogos – os portugueses preferiam o domingo, os britânicos queriam jogar ao sábado – fez com que os súbditos de Sua Majestade deixassem o clube.

Já como Boavista Futebol Clube, teve um grande crescimento ao longo das décadas seguintes. O ponto alto seria a conquista do campeonato português em 2000/01, mas a participação nas provas europeias já acontecia há alguns anos. E foi em 1991/92 que, durante uma eliminatória da Taça UEFA com o Inter de Milão, surgiu a alcunha de “clube das camisolas esquisitas”, numa referência ao equipamento preto e branco axadrezado.

O Estádio do Bessa, remodelado para o Euro 2004, tem um museu com a história do clube, um passeio da fama e duas esculturas da autoria de José Rodrigues em que a pantera, símbolo do clube, está em destaque.