O Coliseu do Porto ou as mil e uma vidas de um clássico

O Coliseu do Porto ou as mil e uma vidas de um clássico

No imaginário dos portuenses o Coliseu do Porto ocupa um lugar muito especial e é, sem desprimor para as restantes, a primeira sala de espectáculos da cidade, talvez porque regularmente e desde o início esteve envolvido entre polémicas.

Quem está no centro da cidade e atravessa a praça D João I, do lado nascente avista a rua Passos Manuel. Subindo pelo lado esquerdo depara-se com um edifício modernista cujo exterior não deixa entrever a singularidade do seu interior. Trata-se do Coliseu do Porto.

Durante décadas esta zona da cidade foi o centro de animação e da vida nocturna do Porto. Na vizinhança foram existindo, e coexistindo, a generalidade das casas de espetáculos da cidade: Desde o tristemente célebre teatro Bachet na rua de Sto António, que no dia 20 de Março de 1888 ardeu em pavoroso incendio durante uma récita com mais de cem vítimas mortais; O posterior teatro de Sá da Bandeira, reerguido no mesmo local do Bachet e que ainda continua com as portas abertas; O teatro de S. João à Batalha, também vitima de outro incêndio, desta vez vazio, no ano de 1909, e mais tarde reconstruído com risco do arq Marques da Silva; e ainda o curioso salão Jardim Passos Manuel, inaugurado no ano de 1908 e construído logo abaixo do Coliseu, na rua do mesmo nome e que teve vida efémera durante três décadas.

A ideia da construção de uma grande sala de espectáculos no Porto remonta ao início do século XX, mas só no início dos anos trinta, um conjunto de notáveis da cidade animou a administração da Companhia de Seguros Garantia a projectar e materializar o Coliseu.

Sobre o desmantelamento do Jardim Passos Manuel em 1938 é que se edificou o Coliseu. Os primeiros estudos arquitectónicos são da autoria de José Porto. Artista sem formação académica mas com conhecimentos ecléticos de construção. O risco da sala principal é da sua autoria. Depois seguiu-se a colaboração de Yan Wills, holandês e pertencente ao movimento modernista De Stijl. Embora tenha elaborado diversos estudos, nenhum foi executado em obra.

Hesitações iniciais de programa e um chumbo da Comissão de Estética da Câmara Municipal do Porto levaram ao afastamento do terceiro projectista -Arq Júlio de Brito- que havia substituído os colegas José Porto e Yan Wills, entretanto já consumidos na voragem de alterações ao projecto e variações de linguagem.

No ano de 1939 a companhia de seguros Garantia contrata os serviços do Arqº Cassiano Branco (1897-1970), então uma estrela em ascensão no mundo da arquitectura portuguesa dos anos 30. No curto espaço de dois anos Cassiano terminou a obra, ainda que em desacordo com o promotor, que o despediu por carta em 10 de outubro de 1940, por “erros e deficiências gravíssimas patentes nas obras”. Sem prejuízo foi Cassiano quem mais marcou a imagem geral e sobretudo a imagem exterior do Coliseu. A sua prestação para o conjunto da obra foi decisiva ao ponto de se lhe poder atribuir a autoria do edifício que lá está.

Entretanto e a convite de Cassiano Branco, também o francês Charles Siclis colaborou introduzindo algumas alterações no interior do edifício, designadamente do desenho das portas e candeeiros.

O último arquitecto a trabalhar no Coliseu foi Mário de Abreu. Que procedeu a alterações de vários elementos, nomeadamente da alteração da torre desenhada por Cassiano, que inicialmente previa a montagem de elementos de iluminação de néon colorido e que este retirou.

Finalmente, no dia 19 de Dezembro de 1941, escassos dois anos após o início dos trabalhos, Joaquim José de Carvalho, presidente do conselho de administração da companhia de seguros Garantia, inaugurou solenemente o Coliseu, com a récita de um concerto da Orquestra da Emissora Nacional dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco. Depois seguiu-se um baile no Átrio. Sobre a data o articulista n’O Comércio do Porto escrevia: “o pendor moderno, confortável, elegante e bem conseguido do edifício”. E ainda “a fachada a que Cassiano deixa o seu nome ligado contribui para que o Coliseu seja uma grande caixa de surpresas”.

A planta do edifício manifesta afinidades com a organização do célebre Teatro Total de Walter Gropius. Há, também, afinidades formais com o movimento funcionalista alemão e europeu do pós primeira guerra mundial. A sala tem capacidade para 3000 lugares sentados. Em complemento tem um grande bar junto à plateia no piso térreo, uma sala complementar, com capacidade para trezentas pessoas e vocacionada para eventos de média dimensão, e no último piso, um restaurante com um terraço donde se avista uma boa panorâmica sobre a cidade.

O interior do Coliseu é magnífico nas suas formas fluidas e circulação orgânica. A sedução da sala circular é difícil de descrever em palavras, mas evidente para quem a visita. As frisas e camarotes sucedem-se em vários pisos, terminando na geral superior, envolvendo na vertical a plateia circular do piso térreo.

Entre tantos artistas que lá se apresentaram, destacam-se: A fadista Amália, o pianista Sviatoslav Richer; o melhor palhaço do mundo Popov; Rudolf Nureyev; o pai do rock português Rui Veloso; Miles Davis ou ainda a diva Claudia Schiffer.

Em 1991 assinalou-se o cinquentenário da Sala com a realização de um grande concerto de homenagem, no qual foi replicado o concerto inaugural. Foi solista a pianista e professora Helena de Sá e Costa, acompanhada de Pedro Burmester e pelo maestro Jan Koenig dirigindo a Orquestra Porto Regie-sinfonia.

Em meados dos anos 90 o proprietário do Coliseu do Porto era a Empresa Artística SA/ grupo Aliança -UAP.    Há necessidade de obras de melhoramento, assim como, fazer face a cada vez maiores despesas correntes de manutenção de um edifício tão grande. Neste quadro, vem a público notícias de eventual venda do Coliseu à IURD, vulgo Igreja Universal do Reino de Deus, com raizes no Brasil e que recentemente havia comprado o em Lisboa o emblemático cinema Império, para o converter em catedral, na passividade geral dos lisboetas.

Portuenses anónimos e os agentes artísticos da cidade uniram-se espontaneamente e, num gesto único, saem à rua numa manha de agosto, manifestando-se ruidosamente contra o negócio e o fecho da Sala, gritando “o Coliseu é nosso”. Na memória colectiva ficou a imagem do cantor Pedro Abrunhosa algemado às grades do Coliseu, rodeado de uma pequena multidão ululante na recusa do negócio. Todos não foram demais para continuar o Coliseu.

Cavalgando a onda de solidariedade que se gerou, os proprietários deixaram cair o negócio da IURD. Em sua vez, no dia 17 de novembro de 1995, foi constituída a Associação Amigos do Coliseu do Porto, presidida pelo Sr Eng José António Barros, em representação dos proprietários, agregando na nova associação inúmeras instituições e cidadãos anónimos da Cidade.

Foi entretanto feita a escritura de compra e venda ficando a ser propriedade da associação Amigos do Coliseu do Porto. Poucos dias depois, após um desfile do Portugal Fashion, ocorreu um incêndio no palco, destruindo-o por completo. Gera-se nova onda de solidariedade, com amplas contribuições monetárias de instituições e particulares, que permitiram a re-abertura do Coliseu ainda nesse mesmo ano.

Foram entretanto realizadas novas obras de manutenção introduzindo alguns melhoramentos técnicos nas infra-estruturas de palco. Assim, no dia 24 de novembro de 1998 foi re-aberto o Coliseu do Porto, dando uma récita da ópera Carmen, de Georges Bizet.

Com este historial de quase oitenta anos decerto que o Coliseu permanecerá no futuro como a grande sala de espectáculos do Porto. Esperemos que afastado de polémicas, como aconteceu no passado. Certamente perdurará no coração dos portuenses.

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5 Março, 2020 / ,
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